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sexta-feira, 17 abril 2020 11:57
COVID-19 pode estar a provocar mais vítimas mortais do que as registadas
COVID-19 pode estar a provocar mais vítimas mortais do que as registadas

Até ao dia 27 de março, Portugal registava aproximadamente 600 mortes acima do expectável, uma tendência de aumento que não se verificava há mais de uma década. A taxa de letalidade do novo coronavírus no país é agora de 3,3%, mas os especialistas deixam um alerta: a COVID-19 pode estar a provocar mais vítimas mortais do que as registadas.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de óbitos ocorrido entre 1 e 31 de março foi de 10.224, dos quais 187 se deveram diretamente à infeção pelo novo coronavírus. Este é o balanço oficial, mas o número de óbitos provocado pela infeção poderá ser maior, já que entre as mortes registadas poderá haver casos de COVID-19 que não foram diagnosticados.

E para lá deste impacto direto há que ter em conta outros efeitos indiretos, como por exemplo, o de poderem existir mais mortes porque devido ao medo de contágio, as pessoas podem estar a adiar o recurso aos serviços de saúde e quando chegam estão já numa situação que é mais difícil de reverter.

Passado mais de um mês do registo do primeiro caso confirmado de COVID-19 em Portugal (2 de março), a taxa de letalidade do SARS-CoV2 em Portugal é agora de 3,3%. Estimativas situam a letalidade da COVID-19 em torno dos 8,6% na Europa. Portugal apresenta, por isso, um valor abaixo desta estimativa. No entanto, se analisarmos as mortes por faixa etária, a letalidade sobe para os 10,7% no caso das pessoas com 70 anos ou mais.

A ausência de informação pormenorizada sobre as características destas mortes motivou um grupo de docentes da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e investigadores do CINTESIS a procurar respostas para lá dos dados divulgados no boletim da DGS, que compilaram num artigo intitulado "Mortalidade em tempos de Covid-19: a que contamos, mas também a que não contamos".

A equipa, coordenada pelo Dr. Jorge Félix Cardoso, analisou os dados disponibilizados pelo Sistema de Informação dos Certificados de Óbito (SICO) e verificou uma subida da mortalidade no mês de março, "que parece ter um ponto claro no tempo: o fim de semana de 7 e 8 de março" - o primeiro fim de semana após a confirmação do primeiro infetado com o novo coronavírus em Portugal.

Os especialistas avaliaram, depois, as tendências da mortalidade nos meses de fevereiro e de março para todos os anos entre 2009 e 2020. A que conclusões chegaram? "Os dados de mortalidade diária em março de 2020 não podiam ser mais excecionais e apontam para uma tendência que não se verificava há 12 anos", explica o Dr. Jorge Félix Cardoso.

Qual o papel da COVID-19 nestes números?

Para calcular uma estimativa do total de óbitos esperados a 27 de março, a equipa de investigadores usou a média dos primeiros sete dias do mês - aproximadamente 300 óbitos por dia - como valor de referência. O número total de óbitos esperados até ao dia 27 seria, então, de 8.100.

Nesse mesmo dia Portugal registava um total de 8.700 óbitos, o que corresponde a aproximadamente 600 mortes acima dessa expectativa, ou cerca, 7% de excesso de mortalidade.

"Destas 600 mortes, 100 encontram-se associadas à COVID-19 (segundo o Relatório de Situação N.º 26, emitido a 28 de março pela DGS, e que traz todos os dados até às 24h de dia 27 de março), ficando 500 óbitos por justificar", esclarecem os investigadores.

"O excesso de mortalidade no mês de março é claro", adianta o Dr. Jorge Félix Cardoso, que atribui o número a quatro situações distintas: óbitos por COVID-19 não diagnosticados; óbitos que, tendo sido evitados em fevereiro, vieram a verificar-se em março; óbitos por outras condições que, fruto da situação atual, acabam por não ser evitados; ou simplesmente óbitos imprevisíveis que já iriam acontecer independentemente das atuais circunstâncias.

A estes números, junta-se também a redução dos episódios de urgência no Serviço Nacional de Saúde (SNS)- menos 246 mil episódios face a 2019 -, associada ao receio de contágio. O Dr. Alexandre Lourenço, presidente da Associação dos Administradores Hospitalares, afirma que o presente cenário confirma o que repetidamente a Associação e outras figuras do setor têm referido: 40% dos atendimentos habituais não são urgentes.

No entanto, o Dr. Jorge Félix Cardoso deixa um alerta: "O sistema não se pode esquecer dos outros doentes, pelos quais é responsável também e, portanto, tem de haver uma cautela para que não se desviem demasiado recursos para o combate à COVID-19".

Os autores da investigação recordam que em Espanha e Itália este fenómeno repete-se. Também o Instituto Carlos III analisou os dados da mortalidade diária em Espanha e encontrou hipóteses que sugerem que a mortalidade está bem acima dos últimos anos, para lá da margem indicada na contagem oficial de mortes por COVID-19.

Em Nembro, o município italiano mais afetado pela pandemia, as mortes em excesso são quatro vezes o número oficial de mortes por COVID-19. "Os autores assumem que o excesso é explicado também por COVID-19, em doentes que morreram em casa e não foram testados", explica.

O Dr. Jorge Félix Cardoso relembra, no entanto, que ainda é cedo para fazer previsões.

O Dr. Henrique Barros, presidente do Conselho Nacional de Saúde, defende que "há seguramente mais pessoas que já passaram pela doença do que aquelas que foram identificadas, nomeadamente as que passaram pela doença com formas clinicamente pouco relevantes, ou totalmente assintomáticas". Um fator que pode fazer baixar a taxa de letalidade do vírus.
"Essas pessoas são importantes porque podem transmitir a infeção, mas também devemos saber que a capacidade de a transmitirem é muito menor do que a de pessoas altamente sintomáticas", esclarece o Dr. Henrique Barros. "É diferente uma pessoa que tenha a infeção sem sintomas, de uma pessoa que a tenha, mas que tussa constantemente", acrescenta.

Fonte: Rádio Renascença/INE

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