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quinta-feira, 23 abril 2020 17:22
Impacto da COVID-19: haverá relação entre o aumento da mortalidade e a redução da ida aos SU por DCV?
Impacto da COVID-19: haverá relação entre o aumento da mortalidade e a redução da ida aos SU por DCV?

O aumento da mortalidade em março, comparativamente ao mesmo período no ano passado, chamou a atenção dos profissionais de saúde, que apontaram o medo generalizado da população de contrair COVID-19 como a razão número um para a falta de procura dos serviços de urgência por motivo de doença aguda ou agravamento das suas doenças crónicas. Para o Prof. Doutor Rui Baptista, não podemos afirmar, pelo menos para já, que este aumento de mortalidade esteja diretamente relacionado com o menor recurso aos serviços de urgência. Muitos óbitos ocorreram em doentes não testados, pelo que ainda não se pode afirmar com certeza a verdadeira causa de morte. Ainda assim, em entrevista ao CardioTalks, o cardiologista refere que houve “uma redução substancial do número de enfartes sem supradesnivelamento do segmento ST” no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC).

“O facto de ter havido um aumento de mortes em Portugal não quer dizer que elas não estejam relacionadas com a COVID-19”, começou o Prof. Doutor Rui Baptista por assinalar desde logo, realçando que estes óbitos provêm de doentes que não fizeram o teste para a infeção “porque o contexto epidemiológico não era sugestivo” e até 9 de março testavam-se apenas doentes com “critérios epidemiológicos mais restritos”. Assim, o cardiologista defende que só depois de uma análise cuidadosa a cada certificado de óbito é que se pode inferir com certeza sobre a verdadeira causa de morte.

Mas, com base na sua experiência na Unidade de Cuidados Intensivos Cardíacos do CHUC, o Prof. Doutor Rui Baptista refere que se observou, de facto, alterações na afluência ao hospital devido a enfarte. “Muitos doentes, provavelmente, ficaram em casa à espera que a dor no peito ou que as alterações da força, da sensibilidade ou da falta passassem [no caso do AVC]”, acrescentou, completando que, “no entanto, não se observou um aumento de doentes que chegassem ao hospital, por exemplo, com insuficiências cardíacas graves pós-enfarte ou com enfartes evoluídos”. Para já, o Serviço de Cardiologia do CHUC encontra-se a avaliar todos os dados para se analisar o impacto da COVID-19 nos doentes cardíacos, sendo que já se percebeu que o número de doentes com enfarte com supradesnivelamento de ST foi igual no período de março e abril de 2020, comparado com o período homólogo de 2019. A mortalidade dos enfartes com supradesnivelamento de ST foi maior, porque se apresentaram com quadros mais graves.

Houve uma redução do número de enfartes sem supradesnivelamento do segmento ST, porém, ainda não se sabe qual a influência na gravidade dos mesmos.

Voltando à problemática da mortalidade, o Prof. Doutor Rui Baptista concorda que “os dados dizem que houve, de facto, um aumento” e menciona que a mesma pode ser consultada numa plataforma gerida pela Direção-Geral da Saúde (DGS). É neste site que se pode ver, segundo o cardiologista, “o aumento da curva de mortalidade superior à dos casos que foram declarados como sendo COVID-19”. Ainda assim, reitera: “Não podemos dizer que os doentes que morreram sem um teste SARS-Cov-2 positivo não seriam, de facto, doentes com COVID-19”.

“O número de doentes que recorreram ao hospital, no caso da Cardiologia com insuficiência cardíaca descompensada, foi muito menor, com uma redução provavelmente superior a 50%”, declarou o Prof. Doutor Rui Baptista, indicando que dados internacionais (p.e. Espanha, EUA e Inglaterra) reportam “reduções à volta de 40% no número de doentes com enfartes com supra”. Por isso, o cardiologista esclarece que o que se espera é “que todos os enfartes que não sejam diagnosticados possam a vir a condicionar um aumento de casos de insuficiência cardíaca a médio prazo.”

Durante o seu depoimento, o Prof. Doutor Rui Baptista apontou a necessidade de se avaliar todos os aspetos “daqui a 3-6 meses, para se perceber o que de facto aconteceu”, já que pode haver vários motivos para o aumento de mortalidade. Além do possível “comprometimento da resposta do INEM”, os próprios doentes podem sentir-se mais limitados a dirigirem-se ao hospital por pensarem “que podem ter de passar uma temporada” internados em fase pandémica.

Somada ao medo, também a adesão à terapêutica pode ser um fator decisivo. “No caso particular de medicamentos que precisem de ajuste terapêutico, nomeadamente, a varfarina ou o acenocumarol, a verdade é que muitos doentes fazem controlos mensais”, referiu o cardiologista, assinalando que com os constrangimentos observados a partir de meio de março, “é natural que os doentes se tenham mantido com as doses semelhantes, nomeadamente aqueles que faziam controlo que não fosse tão regular,”. Logo, para os doentes que “não têm dispositivos domésticos para medir o INR”, o Prof. Doutor Rui Baptista salientou que o SNS “continua disponível para prestar cuidados a doentes com patologia crónica não-COVID-19” e deu como exemplo o CHUC: “Temos feito um esforço gigantesco do ponto de vista de telemedicina, a contactar todos os doentes pessoalmente por telefone que tinham consultas e que não as pudemos fazer, avaliando caso a caso se há necessidade de o doente se deslocar ao hospital, para fazer uma avaliação direta ou fazer algum controlo analítico”.

O Prof. Doutor Rui Baptista destacou ainda uma das medidas tomadas pelo atual governo, de tornar as receitas renováveis, fazendo com que “o doente não tenha que voltar ao centro de saúde ou ao hospital para obter prescrição”, e ir diretamente à farmácia. “Também as receitas de 6 meses viram estendidas a sua validade por mais seis meses. Portanto, estas duas estratégias por parte da política do medicamento foram fundamentais e continuam a ser, para garantir que os doentes têm medicação suficiente”, completou.

Tal como frisou o cardiologista, “os doentes devem continuar a tomar as suas medicações como faziam antes e, em caso de dúvida ou de hemorragia, devem tentar contactar o seu médico assistente, de maneira a poderem obter aconselhamento não presencial”. Caso a “hemorragia for mais do que minor, os doentes podem deslocar-se aos serviços de urgência que continuam a funcionar normalmente e com uma área para doentes não-COVID-19”.

“Portanto, o melhor conselho que eu posso dar é manter a calma e a toma da medicação corretamente; em caso de hemorragia ou de alguma dúvida, tentar contactar o médico assistente – que idealmente, neste momento, já terá a capacidade de dar contactos telefónicos. Se sentir que a situação é mais grave, deve ligar ao 112 ou dirigir-se à urgência mais próxima que tem circuito não-COVID-19, onde é dada uma máscara e o doente pode ter alguma tranquilidade”, concluiu.

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