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ESC2018

quinta-feira, 23 agosto 2018 17:44
“A participação portuguesa na última década tem sido muito honrosa”
“A participação portuguesa na última década tem sido muito honrosa”

O Congresso da European Society of Cardiology (ESC), evento anual que reúne especialistas em Cardiologia de todo o mundo, arranca no próximo dia 25 de agosto em Munique, na Alemanha. Em entrevista ao Cardiotalks, o Prof. Doutor João Morais, presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), comenta os principais assuntos do ESC 2018, com destaque para a forte intervenção portuguesa no congresso, lançando um apelo à continuação da atividade científica no âmbito da Cardiologia. 

Cardiotalks | Enquanto membro do Congress Programme Committee, quais são os pontos altos da edição de 2018 do Congresso da ESC, e as novidades a serem apresentadas ao longo dos cinco dias do congresso?

Prof. Doutor João Morais | O congresso europeu de Cardiologia é o congresso científico mundial da Cardiologia. Tem mais de mil sessões, é um evento gigantesco e, geralmente, muito complexo. Nesta edição do congresso europeu vale a pena destacar a apresentação de cinco novos importantes documentos de guidelines, que têm um impacto muito grande na saúde das pessoas. Por exemplo, o documento sobre gestão da hipertensão arterial. Há já alguns anos que não havia uma revisão das guidelines da hipertensão arterial, que é naturalmente um tema que interessa a toda a comunidade médica. Os outros temas focam o enfarte do miocárdio, a revascularização e um assunto que cada vez mais cardiologistas prestam atenção, que é a doença cardiovascular na grávida. A grávida com doença cardiovascular tem particularidades muito importantes durante o seu processo de gravidez e de parto. A ESC já tinha, há uns anos, publicado um documento desta natureza e agora vai repor. Todos os anos são apresentados grandes estudos clínicos e cada vez mais a comunidade científica mundial escolhe o congresso europeu para apresentar as suas novidades.

Cardiotalks | Existe alguma temática ou estudo que gostasse de destacar pelo impacto que poderá vir a ter na prática clínica dos profissionais de saúde?

Prof. Doutor João Morais | Há variadíssimos novos estudos importantes pelo impacto que podem ter na vida das pessoas, dos quais destaco três áreas. Dois estudos vão apresentar resultados sobre o papel da aspirina na prevenção primária. Ninguém tem dúvidas sobre o papel da aspirina na prevenção secundária, isto é, nas pessoas que já tiveram doença cardíaca. Nos doentes que nunca tiveram doença cardíaca é um tema com muita controvérsia. Outro estudo com impacto importante é o designado COMMANDER-HF. Pela primeira vez, um grande estudo testa um fármaco anticoagulante em doentes com insuficiência cardíaca em ritmo sinusal. Atualmente, os doentes não têm qualquer recomendação nesta área, portanto, este estudo pode criar algo novo. E a terceira área, um estudo que a comunidade cardiológica espera há muito tempo, designa-se GLOBAL LEADERS. É um estudo que vai tentar reduzir o peso da terapêutica antitrombótica após intervenção coronária. Como sabemos, os doentes após intervenção fazem terapêutica antiplaquetária e discute-se muito durante quanto tempo. Neste estudo, tentam reduzir o peso da dupla terapia antiplaquetária, passando os doentes a fazer apenas um antiagregante. Existem outros estudos, mas estes são os estudos que interessam a grandes populações e que podem modificar a nossa prática clínica.

Cardiotalks | Tal como nas edições anteriores, o ESC 2018 volta a ter a participação de inúmeros especialistas portugueses, tanto na qualidade de palestrantes e moderadores de sessões, como na apresentação de posters. Que apreciação global faz sobre este aspeto? Como presidente da SPC, sente-se orgulhoso de ver a Cardiologia nacional tão bem representada?

Prof. Doutor João Morais | Naturalmente, os portugueses têm escolhido o congresso da ESC como o sítio que querem estar e apresentar-se do ponto de vista científico e, portanto, a participação portuguesa na última década tem sido muito honrosa. Portugal tem estado no top 10 dos países que enviam material científico para apreciação do ESC, sendo habitualmente dezenas as apresentações feitas pelos portugueses no congresso europeu, o que nos enche a todos de orgulho. É também importante o número de portugueses que participam em órgãos da ESC. Não só nos órgãos dirigentes, como já tivemos o privilégio de ter um português a presidir a ESC, o Prof. Doutor Fausto Pinto, mas também em vários lugares. Eu acabei de ser nomeado para o Nominating Committee, um órgão importante da ESC em que todos os cargos de nomeação e indicação para candidaturas passam por este comité que os avalia e valida. E resumo a presença portuguesa tem sido muito importante. Como presidente da SPC é evidente que estou orgulhoso, aquilo que temos de fazer é ser capaz de fazer cada vez mais. Dos cinco documentos de guidelines mencionados, o documento sobre a revascularização miocárdica tem um chairman português, o Prof. Doutor Miguel Sousa Uva, cirurgião cardíaco em Lisboa, uma posição de imenso destaque em que centenas de pessoas gostariam de estar.

Um aspeto importante e que gostaria de destacar é a internacionalização da SPC. Internacionalizar a SPC, tornando-a cada vez mais visível na Europa em que nos situamos, passa pela ciência. Os portugueses têm de ser capazes de produzir cada vez melhor ciência, comunicar e publicar cada vez mais ciência e é com isto que aumentamos a nossa visibilidade. Lanço o apelo para que cada vez mais Portugal, os portugueses, a tutela e o ministério prestem atenção à atividade científica. Para sermos cada vez mais visíveis, temos de ser capazes de produzir melhor ciência, e para isso têm de nos dar melhores condições. Atualmente, há uma grande preocupação com a produção, mas é importante olhar para isto porque senão arriscamo-nos a perder em dois ou três anos que aquilo que construímos nos últimos anos.

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