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ESC 2019

quinta-feira, 29 agosto 2019 17:06
ESC 2019: “Os participantes podem esperar um congresso que supere todas as expectativas”
ESC 2019: “Os participantes podem esperar um congresso que supere todas as expectativas”

O Congresso Europeu de Cardiologia (ESC 2019) une-se, pela primeira vez, ao Congresso Mundial de Cardiologia. Numa antevisão ao evento, o Cardio Talks falou com a Prof.ª Doutora Ana Abreu, membro do Congress Programme Committee do ESC 2019, sobre os principais desafios no desenho do programa científico e os temas em destaque. Leia a entrevista completa.

Cardio Talks | Aproximamo-nos a passos largos de mais uma edição do Congresso Europeu de Cardiologia, que este ano será muito especial por se realizar em conjunto com o Congresso Mundial de Cardiologia, numa união de esforços entre a European Society of Cardiology e a World Heart Federation (WHF). Pela dimensão do evento, que desafios tiveram de ultrapassar aquando do desenho do programa científico?

Prof.ª Doutora Ana Abreu | O Congresso Europeu de Cardiologia, organizado anualmente pela ESC, tem nos últimos anos assumido uma grande dimensão, com um número crescente de participantes de outros continentes. O maior desafio neste congresso conjunto entre a ESC e a WHF em 2019, com plena congregação de interesses e meios, é a sua dimensão e toda a logística que acarreta. Paris é uma cidade com enorme capacidade de alojamento e transportes, assim como de centros de congressos e exposições de grande dimensão. Esperam-se mais de 30 mil participantes, sendo este o maior congresso de cardiologia no mundo, com um programa de cinco dias, incluindo mais de 500 sessões científicas e apresentação de mais de 4.500 abstracts selecionados a partir de investigação em todo o mundo. O programa científico teve de base os mesmos desafios dos anos anteriores, com o acréscimo, para além de cobrir áreas de interesse global, de incluir palestrantes de relevo dos vários continentes. O congresso irá focar-se na mais recente e relevante ciência médica cardiovascular com a participação de distintos peritos mundiais que tornarão o congresso muito apelativo.

Cardio Talks | Quais são os principais temas abrangidos no programa deste ano? Há alguns desses temas ou algum estudo que gostasse de destacar pelo impacto que poderá ter na prática clínica dos profissionais de saúde?

Prof.ª Doutora Ana Abreu | Como é habitual, o Congresso da ESC é muito abrangente, sendo este ano mais ainda, pelo facto de se realizar conjuntamente com o mundial da WHF. Inclui temáticas de Risco, Prevenção e Reabilitação Cardiovascular (CV), Imagem CV, Saúde Digital e Telemedicina, Arritmologia e Dispositivos, Insuficiência Cardíaca, Doenças valvulares, Doenças do miocárdio, Economia e Saúde, entre outras.

Destes temas, destaco a área da prevenção CV, cada vez mais importante, a nível mundial. Para além do aparecimento de novos fármacos e novas tecnologias, constata-se que o avanço diagnóstico e terapêutico da Cardiologia já é tão grande que neste momento é necessário apostar mais em impedir o aparecimento da doença e em desenvolver o bem-estar físico e mental do indivíduo. As alterações ambientais, com a poluição e as perturbações climáticas, e o estilo de vida atual com elevado grau de stress e de distúrbios do sono e da alimentação, culminando em burn-out e em anorexia ou bulímia, são apenas alguns exemplos de fatores externos potencialmente controláveis com influência determinante na saúde e doença cardiovascular, estendendo-se cada vez mais a idades mais jovens.
A Saúde digital com a telemedicina, incluindo os registos digitais médicos e suas especificidades, big data, tele e auto-monitorização com utilização de vários dispositivos e novas ferramentas, é também um tema transversal com enorme potencialidade, diagnóstica, preventiva e terapêutica, podendo alcançar doentes a grande distância geográfica de centros hospitalares ou doentes com dificuldade de deslocação, como por exemplo idosos e muito idosos, um grupo a que cada vez se dá importância maior pela dimensão que está a assumir e pelo impacto a nível social e económico.
Gostaria de dar um particular destaque às cinco novas guidelines da prática clínica da ESC de 2019 lançadas no congresso e que se irão repercutir na implementação clínica de medidas baseadas na evidência científica e conhecimento de peritos: Dislipidemias, Síndromes Coronários Agudos, Taquicardias Supraventriculares, Embolismo Pulmonar e Diabetes, Pré-diabetes e DCV (em colaboração com a European Association of Study of Diabetes - EASD).

De múltiplos estudos de investigação básica e clínica que irão ser apresentados durante o Congresso, destaco apenas alguns, pela sua importância em termos de impacto clínico, como o Pure, o Clarity, o Paragon-HF, entre outros, que serão apresentados em sessões de grande interesse: Meet the Trialist.
É importante referir que muitas sessões foram construídas a pensar não só nos médicos mas em todos os profissionais de saúde.

Cardio Talks | O foco escolhido para esta edição é a “Global Cardiovascular Health”, com um programa próprio de sessões. Qual é o objetivo ao escolher-se este tópico – como o nome indica – tão global e o que é que se teve em conta na seleção de tópicos que serão abordados nessas sessões?

Prof.ª Doutora Ana Abreu | O objetivo do tópico em foco, Global Cardiovascular Health, consiste em destacar as diferenças no mundo entre prevalências, manifestações clínicas, estratégias de prevenção, modalidades de diagnóstico e tratamento das doenças cardiovasculares.

Além da genética, a influência que o ambiente físico, social, económico e cultural tem sobre a saúde cardiovascular e a saúde em geral gera diferenças na forma com a DCV se distribui e manifesta e na forma com a DCV é encarada em termos de prevenção e terapêutica. Conhecendo a realidade da DCV e dos fatores de risco a ela associada e suas consequências, e a abordagem terapêutica e preventiva nos diversos países, poderemos tirar ilações importantes e algumas serão possíveis de transpor para outros países com características sobreponíveis. Pretende-se promover neste congresso conjunto, uma troca de experiências de implementação e de resultados que possam melhorar a Saúde CV Global.

Na CV Global Health foram inseridos temas transversais e prementes, como técnicas personalizadas de cessação tabágica com estratégias que passam por cigarros eletrónicos, patch ou fármacos, papel da infeção e inflamação na DCV, importância da saúde pública e da economia em saúde, aspectos ambientais na DCV, avaliação do risco CV baseado em diferentes scores com suas limitações e valor clínico, efeito da nutrição e desnutrição na DCV, disparidades nos SCA entre ricos e pobres e em diferentes etnias, DCV na mulher, como ameaça ou oportunidade, evidência, hiatos e intervenção na carga da DCV global e regional, e estratégias para redução da DCV em 30% em 2030, entre outros.

Cardio Talks | À semelhança de outras edições, Portugal estará bastante representado no Congresso da ESC, não só pelas participações em moderações de sessões, em palestras ou apresentação de trabalhos, mas também pela organização de uma das “Big Picture Sessions”, a cargo da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. Fazendo uma análise global, a seu ver, isto é um indicador da qualidade da Cardiologia nacional?

Prof.ª Doutora Ana Abreu | É. Tem vindo a ser demonstrado ultimamente o crédito da qualidade da Cardiologia nacional. Cada vez existem mais portugueses envolvidos quer na organização de congressos europeus, quer realizando trabalho relevante dentro das próprias sociedades internacionais. A investigação, sobretudo clínica, efetuada por cardiologistas em Portugal ou em colaboração com cardiologistas, sobretudo europeus, tem vindo a aumentar, com grande qualidade, assumindo em crescendo uma dimensão internacional. A título de exemplo, a Sociedade Portuguesa de Cardiologia esteve recentemente envolvida no Estudo Europeu EuroAspire IV e V, com muito empenho e cumprindo os objetivos esperados. Acho que a Sociedade Portuguesa de Cardiologia e, em geral, os cardiologistas portugueses têm uma grande aceitação e excelente imagem a nível europeu e, diria mesmo, mundial. A formação de base em Medicina e a diferenciação em cardiologia nacional é excelente e a capacidade de trabalho, adaptação e inovação dos portugueses é inexcedível.

Cardio Talks | Para terminar, de uma forma geral, quais são as suas expectativas para o ESC 2019? O que é que todos os participantes podem esperar?

Prof.ª Doutora Ana Abreu | Espero e acredito sinceramente que este congresso supere todas as expectativas dos seus participantes, pelo grande interesse científico, inovação presente nas sessões e possibilidade de interação e promoção de investigação e redes de contactos. Irá seguramente incluir muitos jovens participantes que se deslocarão de países com realidades muito diferentes, podendo interagir entre si, e que serão o futuro próximo da cardiologia mundial, o que dá a este congresso uma enorme responsabilidade.

Os participantes podem esperar assistir a um programa muito pensado, discutido e cuidadosamente elaborado, de grande qualidade e atualidade científica, com sessões apelativas e temáticas dirigidas a todos os interesses, moderado e apresentado por peritos mundiais nas várias áreas.

Nestas, incluem-se as apresentações da temática em foco, Global CV Health, contactando com as diferenças e semelhanças mundiais na Saúde e Doença Cardiovascular e sua abordagem global, as Hotline Sessions com apresentação de trabalhos de investigação recentemente finalizados, mesmo que ainda não publicados, com posterior discussão por peritos de renome na área e as Late breaking Science Sessions, com resultados de investigação recente agrupados por tópicos, do maior interesse, nomeadamente para os que trabalham em investigação ou pretendem estar atualizados com os últimos estudos.

Nas Clinical Practice Guidelines Sessions, serão apresentadas, conforme já referi, as cinco novas guidelines, da ESC de 2019, no âmbito da diabetes, do embolismo pulmonar, da taquicardia supraventricular, dos síndromes coronários agudos e das dislipidemias, que suscitarão todo o interesse para posterior implementação prática de medidas consideradas cientificamente mais corretas na orientação e tratamento do doente CV.

Com interesse clínico prático existirão ainda sessões de atualização temáticas que irão refrescar e expandir o conhecimento clínico por tópicos, no Simpósio Cardiology in 4 days. Igualmente com interesse clínico existirão sessões de informação e aconselhamento, Expert Advice Sessions e How should I treat Sessions, e para discussão de casos clínicos, as Case-based sessions.

Sessões de Controvérsias com debates relevantes, Box-life procedures com procedimentos ao vivo em Centros internacionais de referência e uma sessão pioneira sobre Emergency Medicine, em colaboração com a Acute Cardiovascular Care Association (ACCA) e a Societé Francaise de Cardiologie (SFC), irão tornar este congresso ainda mais estimulante.

Para aqueles que gostam de novas tecnologias e inovação, não faltam sessões de Medicina digital e de novos dispositivos médicos. Existirão ainda as participadas Qizz sessions para desafiar o conhecimento.

Além desta motivação de aprendizagem e atualização constante, os participantes terão oportunidade de apresentar os seus trabalhos de investigação, de conhecer e criar ligações com outros participantes e outras instituições, de conhecer novas oportunidades de estágios, projetos ou trabalho e de interagir com peritos de renome mundial. Um aspeto que considero sempre muito importante nestes congressos é a possibilidade de estabelecer ligações em rede com os centros, entre os vários hospitais, as várias universidades, os vários institutos e que irão permitir uma continuidade e até o aparecimento de novos projetos e concursos comuns a bolsas de investigação que muitas vezes só é mesmo possível pela criação de grupos internacionais.

Desejo a todos os participantes que desfrutem de um excelente congresso europeu e mundial de cardiologia 2019 em Paris!

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