© News Farma 2026
Todos os direitos reservados

O acesso à área reservada do Cardio Talks, bem como a receção das suas newsletters é restrita a profissionais de saúde.

int(0)
terça-feira, 05 setembro 2017 10:14
Resultados do estudo COMPASS apresentados no ESC 2017
Resultados do estudo COMPASS apresentados no ESC 2017

Durante a sessão Hot Line: Late-Breaking Clinical Trials 1 foram apresentados resultados de vários ensaios clínicos, entre os quais do estudo “Cardiovascular OutcoMes for People using Anticoagulation StrategieS (COMPASS)”. Na qualidade de membro do Steering Committee e de investigador do estudo, o Prof. Dr. John Eikelboom explicou de que forma o COMPASS foi conduzido e as principais conclusões sobre a utilização de rivaroxabano, em monoterapia ou em combinação com aspirina, em doentes com doença cardiovascular estável.

De acordo com a informação cedida pelo palestrante, este foi um trabalho conduzido independentemente pelo Population Health Research Institute, com o apoio da Bayer AG. “A doença cardiovascular (DCV) afeta 4% da população mundial, o que corresponde a cerca de 300 milhões de pessoas”, começou por declarar o Prof. Dr. John Eikelboom, afirmando também que embora “a aspirina seja a terapia mais utilizada para a prevenção secundária prolongada, esta produz uma redução do risco relativo de apenas 19%”. Por outro lado, tal como o especialista indicou, “os resultados de ensaios clínicos com varfarina demonstraram o seu potencial de anticoagulação para proporcionar benefícios adicionais, quando utilizados para prevenção secundária. Contudo, a varfarina é uma terapêutica bastante problemática devido ao risco de hemorragia, especialmente ao aumento da hemorragia intracraniana”. O docente acrescentou ainda que “o rivaroxabano é um anticoagulante mais seguro do que a varfarina e, quando usado em doentes com síndrome coronariana aguda recente, reduz a mortalidade”.

Desta forma, com base nos dados de outro ensaio clínico de fase 3, o ATLAS ACS 2–TIMI 51 (Mega JL et al., 2012), e nas doses já testadas no mesmo, os investigadores foram avaliar se o rivaroxabano, em doentes com DCV estável, seja na dose de 2,5 mg (duas vezes por dia) em combinação com aspirina 100 mg (uma vez por dia), ou na dose de 5 mg (duas vezes por dia), consegue reduzir a mortalidade CV, o risco de acidente vascular cerebral (AVC) ou de enfarte do miocárdio, em comparação à utilização de aspirina 100 mg (uma vez por dia).

Desenho do estudo COMPASS

Segundo o Prof. Dr. John Eikelboom, “o estudo COMPASS incluiu doentes com Doença Arterial Coronária (CAD) ou Doença Arterial Periférica (PAD) e foi projetado para continuar, até que 2200 participantes experienciassem um outcome primário”. “Durante uma primeira fase de 30 dias, os participantes foram expostos a uma dose reduzida de aspirina e aqueles que tolerassem esta terapêutica e concordassem em continuar, foram então randomizados para um dos três braços de tratamento: a combinação de rivaroxabano e aspirina, rivaroxabano ou aspirina em monoterapia”, descreveu o especialista, que acrescentou que o período de follow-up expectado seria de três a quatro anos.

Em termos de outcomes, o Prof. Dr. John Eikelboom indicou os primários como morte CV, AVC ou enfarte do miocárdio, e os secundários em três possibilidades: morte por cardipatia congénita, AVC isquémico, enfarte do miocárdio ou isquemia aguda dos membros; morte CV, AVC isquémico, enfarte do miocárdio ou isquemia aguda dos membros; apenas mortalidade.

Relativamente aos outcomes de segurança, o orador esclareceu que foi utilizada uma modificação do critério da International Society on Thrombosis and Haemostasis no que respeita à hemorragia major. “Também pré especificámos um outcome de benefício clínico NET, que foi a combinação de um outcome primário e um dos tipos mais severos de hemorragia”

Outras das informações dadas pelo investigador foi de que os participantes foram selecionados de 602 locais, num total de 33 países, e de que “a 6 de fevereiro de 2017, o Data and Safety Monitoring Board recomendou a discontinuação dos braços rivaroxabano/aspirin pela evidência clara de eficácia”. Assim, o período médio de follow-up foi de 23 meses.

Quanto às características dos doentes incluídos nos três braços de tratamento, foram consistentes em termos de idade (68 anos), pressão arterial (máx: 136 mmHg; min: 77 ou 78 mmHG), colesterol total (4,2 mmol/L), CAD (90 ou 91%), PAD (27%), diabetes (38%), medicação concomitante (redução de colesterol: 89 ou 90%; IECA ou BRA: 71 ou 72%).

Principais resultados do COMPASS

Relativamente aos outcomes primários (morte CV, AVC ou enfarte do miocárdio), na combinação de rivaroxabano com aspirina, 4,1% dos doentes foram afetados, enquanto que para o rivaroxabano em monoterapia foram 4,9% dos doentes e para a aspirina 5,4% dos doentes. “O Hazard Ratio (HR) para a comparação entre a combinação versus aspirina foi 0,76, ou seja, 24% de redução do risco relativo, o que foi estatisticamente significativo (p < 0.0001)”, informou o Prof. Dr. John Eikelboom, completando que “o HR para a comparação entre rivaroxabano versus aspirina foi de 0,90, o que corresponde a apenas 10% de redução de risco relativo, sem significância estatística”.

De seguida o também professor associado no Departmento de Medicine na McMaster University em Hamilton (Ontário, Canadá), colocou em destaque os resultados dos outcomes secundários, sendo que, para as três possibilidades pré-estabelecidas, houve uma redução consistente do risco relativo de eventos, favorável à utilização da combinação rivaroxabano + aspirina. O mesmo foi observado, após uma análise por subgrupos (doentes com CAD e doentes com PAD).

No entanto, os benefícios da conjugação de rivaroxabano com aspirina não foram observados no que respeita à de hemorragia major, tendo havido inclusivamente um aumento destes eventos nos braços da combinação e do rivaroxabano em monoterapia, com HR de 1,70 e de 1,51, respetivamente (versus aspirina). Ainda assim, as taxas de eventos hemorrágicos severos foram baixas em todos os braços de tratamento, geralmente inferiores a 0,5%.

Sobre os benefícios clínicos NET (outcome primário + eventos hemorrágicos severos), o Prof. Dr. John Eikelboom mostrou que no braço da combinação 4,7% dos doentes foram afetados, enquanto que no grupo da aspirina foram 5,9% dos doentes, o que se traduziu num HR de 0,80, ou seja, redução do risco em 20%, sendo este resultado estatisticamente relevante (p = 0.0005).

Principais conclusões

Para terminar, o especialista mostrou que a dose de 2,5 mg de rivaroxabano (duas vezes por dia) em combinação com a dose de 100 mg de aspirina (uma vez por dia):

- Reduz a morte CV, o risco de AVC e de enfarte do miocárdio;

- Aumenta o risco de hemorragia major, sem um aumento significativo da hemorragia fatal, intracraniana ou dos órgãos (hemorragias severas);

- Proporciona um benefício clínico NET.

A seguir à apresentação do estudo COMPASS, o Prof. Dr. Eugene Braunwald, especialista em Medicina Cardiovascular no Brigham and Women's Hospital e figura de referência da Cardiologia mundial, questionou a assistência sobre se o estudo seria “An important step in Thrombocardiology?”. Após comparar os resultados dos ensaios clínicos CURE, ATLAS-2 e COMPASS, no que diz respeito aos perfis de eficácia e segurança das diferentes terapêuticas aterotrombóticas na CAD (aspirina, dupla antiagregação plaquetária, varfarina e rivaroxabano 2,5 mg), o cardiologista respondeu à questão inicial: “Sim, o COMPASS é um importante passo na área da trombocardiologia”.

Seta Anterior
Artigo Anterior